A teoria metabólica em pormenor: compreender o modelo de Laurent Schwartz
Para compreender a proposta terapêutica de Laurent Schwartz (que inclui o azul de metileno), é necessário aprofundar a sua visão mecânica do cancro. Longe de ser uma simples intuição, trata-se de um modelo biológico estruturado que procura relacionar observações dispersas — inflamação, metabolismo, genética — num quadro coerente. Schwartz não nega a genética, mas propõe olhá-la sob outro ângulo: o da consequência e não o da causa única.
O ponto de partida: a célula em «sofrimento» energético
No cerne da teoria encontra-se a mitocôndria, a fábrica energética da célula. Schwartz propõe que a iniciação cancerosa começa, muitas vezes, por um stress mitocondrial.
1. A agressão inicial e a viragem glicolítica
Uma célula normal utiliza as suas mitocôndrias para queimar a glicose com oxigénio (respiração), produzindo muita energia (ATP) e poucos resíduos. Schwartz postula que diversas agressões (inflamação crónica, carcinogéneos químicos, vírus, radiações ou mesmo excesso de açúcar) acabam por danificar a função respiratória da mitocôndria.
Perante esta potencial «avaria» energética, a célula tem apenas uma opção para sobreviver: virar-se para um modo de recurso arcaico mas robusto, a glicólise fermentativa. É o célebre «efeito Warburg». A célula passa a consumir glicose em grande quantidade e a fermentá-la, mesmo na presença de oxigénio.
2. O círculo vicioso da acidez e da pressão de seleção
É aqui que o modelo de Schwartz se torna particularmente interessante. Esta viragem metabólica não é neutra:
- A fermentação produz em grande quantidade ácido láctico (lactato).
- A célula tem de expulsar este ácido para não morrer, acidificando assim o seu microambiente imediato.
Segundo Schwartz, esta acidez extracelular atua como um poderoso filtro seletivo (uma pressão darwiniana). As células normais não suportam este meio ácido e morrem ou tornam-se quiescentes. Apenas as células capazes de sofrer mutações para resistir ao ácido sobrevivem.
Assim, o metabolismo «anormal» cria as condições que selecionam as mutações genéticas (como a perda do gene p53, guardião do genoma). Nesta visão, as mutações genéticas são reais, mas constituem a resposta adaptativa a um problema metabólico inicial, e não a causa primeira caída do céu.
3. O bloqueio da diferenciação
Uma célula normal nasce, desempenha a sua função (diferencia-se) e depois morre (apoptose). Uma célula cancerosa, pelo contrário, fica bloqueada num estado imaturo e divide-se sem fim.
Schwartz relaciona isto com a energia: a diferenciação exige uma energia mitocondrial estável e complexa. Uma célula que funciona apenas em «modo de recurso» (glicólise) simplesmente não dispõe da «largura de banda» energética nem dos sinais redox necessários para se diferenciar. Permanece bloqueada em modo «sobrevivência/proliferação».
A pressão osmótica: uma visão física
Um aspeto original da teoria de Schwartz consiste em integrar a física simples. Uma célula cancerosa é, muitas vezes, uma célula túrgida, inchada de água, com uma pressão interna elevada.
- A glicólise acumula osmólitos (moléculas que atraem a água) no interior da célula.
- Esta elevada pressão interna força fisicamente a divisão celular (mitose).
- Para Schwartz, tratar o cancro significa também «desinchar» a célula, reduzindo essa pressão osmótica através da normalização do metabolismo.
Porque é esta teoria sedutora e pertinente?
Explica o fracasso parcial das terapias dirigidas
Se o cancro for uma doença puramente genética, cada mutação exige um medicamento diferente. Mas os tumores sofrem mutações constantes, desenvolvendo resistências. Se o problema de fundo for metabólico (uma «avaria» comum a todas as células tumorais), então uma abordagem metabólica universal poderia, em teoria, contornar as resistências genéticas.
Reabilita moléculas simples
Se o objetivo for «reparar» a respiração mitocondrial ou reduzir a acidez, não são necessariamente precisas terapias génicas complexas. Moléculas simples capazes de aceitar eletrões (como o azul de metileno) ou de modificar o pH poderiam ter uma eficácia surpreendente.
Os limites e as zonas de sombra a explorar
É evidente que esta teoria não é aceite por todos, e subsistem zonas que a investigação deverá esclarecer:
- O ovo ou a galinha? A biologia molecular moderna mostra que certas mutações genéticas (oncogenes) podem provocar diretamente a viragem metabólica. A relação é provavelmente bidirecional (genética ↔ metabolismo), ao passo que Schwartz insiste bastante na primazia metabólica.
- A complexidade mitocondrial: nem todos os tumores têm mitocôndrias defeituosas no mesmo grau. Alguns tumores utilizam mesmo muito bem as suas mitocôndrias. O modelo aplica-se, sem dúvida, melhor a certos cancros do que a outros.
Porque não é este o paradigma dominante?
É a questão central. Se esta teoria é coerente, porque não está no centro da investigação mundial?
A resposta é provavelmente sistémica e económica, tanto quanto científica:
- A inércia da investigação: há 40 anos que os fundos de investigação são massivamente canalizados para a genética. Mudar de paradigma exige tempo.
- A falta de rentabilidade: validar esta teoria implicaria, muitas vezes, utilizar moléculas antigas, não patenteáveis (azul de metileno, ácido lipóico, hidroxicitrato). A indústria farmacêutica, principal motor dos dispendiosos ensaios clínicos, não tem qualquer interesse financeiro em provar que uma combinação de moléculas genéricas a 10 euros por mês pode estabilizar um cancro. Não se trata de uma conspiração, mas de uma realidade económica de mercado: sem patente, não há retorno do investimento para financiar os estudos de fase 3.
Conclusão
A teoria metabólica detalhada por Schwartz é uma construção intelectual robusta e estimulante. Oferece uma grelha de leitura diferente que não nega os factos observados (mutações, tumores), mas relaciona-os de outra forma. Abre a porta a tratamentos metabólicos adjuvantes que mereceriam, num mundo ideal, ser testados com o mesmo rigor e os mesmos orçamentos que as novas terapias génicas.